Argos

Há muitos anos eu venho usando um software chamado Rufus para criar pendrives bootáveis de .isos de sistemas operacionais para computadores recentes (GPT/UEFI) e para os dinossauros de silício que ainda habitam os laboratórios do IFRN (MBR/BIOS). É legal fazer os alunos interagirem com ele porque força uma conversa sobre procedimentos de BIOS, tabelas de partição, tamanho de cluster, entre outras nerdices. Entretanto, ele é um programa para Windows.

Se eu estivesse usando um laptop com alguma distribuição Linux ou macOS nas aulas, sempre precisaria de um dual boot para o Windows ou uma segunda máquina para mostrar e usar propriamente o programa no parque jurássico do instituto. Decidi ver até onde esses harnesses poderiam ir numa tarefa como essa: fazer uma versão do Rufus para macOS e Linux. A princípio, pensei em contribuir com o próprio software Rufus, que é aberto, inclusive. Mas logo vi que o código era construído pensando no Windows. Não daria certo fazer esse port. Uma saída melhor seria fazer do zero. Abri uma sessão do Claude Code despretenciosamente e planejei o código escolhendo Rust como linguagem-alvo. Eu só tinha feito um hello world em Rust. Isso foi proposital, não queria poder intervir justamente para testar os limites do harness.

Rufus é um ótimo nome de cachorro. Eu tinha que continuar com essa linhagem de softwares criadores de pendrives inicializáveis com nomes caninos. Usei o modelo Sonnet de cara e em algumas horas nascia o Argos. Poucas horas separavam o prompt inicial da inicialização de uma máquina a partir de um pendrive criado pelo software neonato. Praticamente toda a programação foi feita em ’linguagem natural’. Foi divertido, mas encontrei uma fronteira difícil de transpor para incluir suporte à gravação de isos do Windows. Minha primeira ideia foi importar parte do código do próprio Rufus para a solução do problema, mas isso faria a licença MIT ser transformada em GPL. Sendo bem sincero, eu estava com alguns créditos do Fable 5.0 e aquilo parecia a tarefa perfeita: fazer do zero essa ferramenta ao estilo dos desenvolvedores do clone da BIOS do IBM PC numa sala limpa. Audere est facere, que é a versão em latim para o português nordestino vibecodado de ‘Apois, arroxe o nó aí, Claudinho’. Como sabia que não haveria tokens pro projeto completo, pedi pras tarefas serem rotuladas com níveis de dificuldade e divididas por plataforma; assim eu poderia chavear de modelo e agente, centralizando tudo pelo GitHub.

Uma semana depois e com algumas ajudinhas da minha parte, o Argos estava criando isos de Linux e Windows tanto em máquinas GPT/UEFI quanto MBR/BIOS. Os tokens do Fable se esgotaram logo na metade da primeira issue pós-fase de planejamento, então o Sonnet voltou a ser protagonista dali até o fim. Mais uma semana de brincadeira e uma interface gráfica já estava disponível e pronta pra uso.

Inspecionar os múltiplos agentes construindo o software foi ao mesmo tempo divertido, interessante e até um pouco assustador. Um dos momentos memoráveis foi quando a inicialização do instalador do Windows já estava funcionando, mas a detecção dos dispositivos de armazenamento estava com problema. O agente decidiu replicar o erro real invocando um simulador (QEMU) para simular cliques e imitar um humano navegando pelo processo de instalação do Windows. Houve inclusive reclamações da demora da resposta entre cliques! No final ele conseguiu evitar a necessidade de ter um humano à disposição, fazendo testes em uma máquina real. São realmente impressionantes as possibilidades da combinação de LLMs com o harness, explosão de paradigmas por todos os lados.

Enfim, é difícil dizer se a indústria de software vai colapsar ou se o mundo vai acabar por causa da inteligência artificial. Até lá, qualquer um pode usar ou contribuir com o Assistente de Rebolar Gueri-gueris em Outros Sistemas.

Aqui está o repositório no Github.

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